Como era a saúde brasileira antes do SUS?
Muitos brasileiros hoje encaram o acesso à saúde como um direito natural, mas a verdade é que o cenário que conhecemos — onde qualquer pessoa pode ser atendida em um posto de saúde ou hospital público — é uma conquista relativamente recente. Antes da criação do Sistema Único de Saúde (SUS) pela Constituição de 1988, o Brasil vivia uma realidade de profunda exclusão e fragmentação.
Para entender a importância do sistema atual, precisamos olhar para o que veio antes. Vamos explorar como funcionava a saúde no Brasil quando ela ainda não era um direito de todos.
A Divisão Social da Saúde: O INAMPS e a Carteira Assinada
Até o final da década de 80, a saúde pública no Brasil era vinculada à Previdência Social. Isso significa que o acesso ao médico não dependia da necessidade do paciente, mas sim da sua posição no mercado de trabalho.
Em 1977, foi criado o INAMPS (Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social). Este órgão atendia exclusivamente os trabalhadores com carteira assinada e seus dependentes. Se você contribuísse para a previdência, tinha direito ao atendimento.
E quem ficava de fora?
A imensa maioria da população. Trabalhadores informais, desempregados, trabalhadores rurais e autônomos eram considerados "indigentes sanitários". Para eles, as únicas opções eram:
Santas Casas de Misericórdia: Hospitais filantrópicos que dependiam de caridade.
Hospitais Universitários: Onde o atendimento era limitado.
Pagamento Direto: O que era inacessível para a maior parte das famílias.
Um Modelo "Curativista" e Hospitalocêntrico
Diferente do SUS, que foca na prevenção e na Saúde da Família, o sistema pré-1988 era focado na doença, não na saúde. O modelo era essencialmente curativo: esperava-se que a pessoa ficasse doente para então tratá-la em um hospital.
Havia pouco ou nenhum investimento em saneamento básico, vacinação em massa ou educação sanitária. O resultado era um quadro epidemiológico alarmante:
Altas taxas de mortalidade infantil.
Baixa expectativa de vida (que chegava a apenas 47 anos na década de 50).
Surtos constantes de doenças como sarampo, meningite e poliomielite.
O Modelo Privatista e a Ditadura Militar
Durante o regime militar, o governo optou por não construir uma rede própria de hospitais públicos robusta. Em vez disso, o Estado comprava serviços do setor privado. O INAMPS pagava hospitais particulares para atender os segurados.
Essa lógica gerou distorções graves. Como o pagamento era feito por procedimento realizado, o sistema incentivava internações desnecessárias e cirurgias excessivas, abrindo margem para ineficiência e corrupção, enquanto a saúde básica da população continuava negligenciada.
A Saúde como Direito de Cidadania
A grande virada ocorreu com o movimento da Reforma Sanitária. Médicos, intelectuais e movimentos sociais passaram a defender que "Saúde é Direito de Todos e Dever do Estado".
Com a promulgação da Constituição de 1988, o conceito de saúde mudou radicalmente: deixou de ser um benefício previdenciário para se tornar um direito universal. O SUS nasceu para unificar as ações, descentralizar o atendimento e, acima de tudo, garantir que nenhum brasileiro fosse mais chamado de "indigente" por não ter um emprego formal.
Entender o passado nos ajuda a valorizar as estruturas que garantem o bem-estar da nossa sociedade hoje. O SUS é um patrimônio de todos os brasileiros e sua história é um lembrete da importância de políticas públicas inclusivas.
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