O que estão escondendo quando dizem que “política é complexa demais”?
Você já sentiu aquele nó no estômago ao tentar acompanhar uma votação no Congresso ou um debate sobre política monetária? Aquela sensação de que, apesar de falar português, aquelas pessoas estão usando um idioma que não é o seu? Se a resposta for sim, saiba que isso não é uma falha na sua educação. É um projeto.
A frase "política é complexa demais" circula nos corredores do poder, nos estúdios de TV e nas mesas de jantar como uma espécie de cerca elétrica invisível. Ela serve para demarcar quem pode entrar no jardim das decisões e quem deve ficar do lado de fora, apenas observando o movimento. Na MM MONTEIROS, nós acreditamos que quando alguém tenta te convencer de que você não é capaz de entender algo que afeta o preço do seu aluguel, o valor da sua comida e os seus direitos civis, essa pessoa não está tentando te informar — ela está tentando te silenciar.
1. “Política é complexa demais”: quem ganha com essa frase?
Essa frase não é um diagnóstico; é uma arma de exclusão. Ela funciona como uma ferramenta de despolitização da sociedade. Ao rotular a política como um campo de alta complexidade, acessível apenas a doutores em economia ou juristas de terno caro, as elites políticas e econômicas criam uma barreira simbólica.
Quem ganha com isso? Os mesmos de sempre. Ganha quem prefere uma população que se sente ignorante e, por consequência, impotente. Quando você acredita que "não entende de política", você terceiriza a sua opinião. Você para de questionar por que o orçamento público prioriza o pagamento de juros da dívida em vez do saneamento básico, porque, afinal, "isso deve ser técnico demais para mim".
Tese central: Quando dizem que a política é complexa demais, estão dizendo, na verdade, que a política não é lugar para você.
2. Complexidade Real vs. Complexidade Fabricada
Não sejamos ingênuos: gerir um país de 200 milhões de habitantes exige logística, dados e estratégia. Existe uma complexidade real na administração pública. No entanto, o que enfrentamos no dia a dia é a complexidade fabricada.
Os direitos fundamentais, os impostos que pagamos e as leis que regem nossos corpos são conceitos que podem — e devem — ser explicados de forma clara. Mas a tecnocracia prefere o labirinto. O excesso de jargões, as siglas herméticas e os ritos pomposos não servem para esclarecer o processo, mas para confundir. Se o povo entender como o mecanismo funciona, ele saberá exatamente onde apertar para o sistema parar de esmagá-lo.
3. A Linguagem como Instrumento de Poder
Quem controla o dicionário da política controla o debate público. A linguagem política e jurídica no Brasil ainda carrega o ranço de uma elite que se vê como "sangue azul". O uso estratégico de termos em latim ou conceitos econômicos abstratos cria uma exclusão simbólica.
Política vira um "clube fechado" com idioma próprio. Quando uma mulher periférica, um jovem LGBTQIA+ ou um trabalhador rural tentam reivindicar seus espaços, são frequentemente barrados pelo argumento da "falta de preparo técnico". É o famoso "vai estudar antes de falar", uma frase usada não para incentivar o saber, mas para deslegitimar a vivência de quem sente na pele o resultado das decisões políticas.
4. Tecnocracia: Quando Especialistas Governam Sem o Povo
Vivemos a era do "mito da neutralidade técnica". É comum ouvirmos que certas decisões — como a autonomia do Banco Central ou reformas estruturais — "não são ideológicas, são técnicas".
Cuidado: nada na política é neutro. Toda decisão técnica carrega um projeto político por trás. Se um economista diz que é "técnico" cortar investimentos em educação para "equilibrar contas", ele está fazendo uma escolha ideológica sobre quem deve pagar a conta do ajuste. A tecnocracia é a tentativa de retirar a política da mão do povo e entregá-la a algoritmos e planilhas que, convenientemente, sempre favorecem o topo da pirâmide.
5. Quem Pode Opinar e Quem Deve Ficar em Silêncio
A barreira da "complexidade" é usada de forma desproporcional contra grupos historicamente marginalizados.
Mulheres: Frequentemente interrompidas (o famoso manterrupting) com a desculpa de que "não entendem a macroeconomia".
Pessoas Negras e Periféricas: Suas demandas são lidas como "emocionais" ou "específicas", enquanto o debate "sério" seria o técnico-financeiro.
População LGBTQIA+: Seus direitos são tratados como "pauta de costume" menor, enquanto os "grandes temas" da nação são reservados aos especialistas de sempre.
O silenciamento é uma estratégia de manutenção de privilégios. Se você convence as margens de que elas não têm o vocabulário adequado para o debate, você garante que o centro do poder nunca seja ocupado por novos rostos.
6. A Mídia e o Fetiche da Complexidade
A grande mídia desempenha um papel fundamental nessa engrenagem. Observe os painéis de comentaristas políticos: geralmente são as mesmas vozes, com os mesmos sotaques, defendendo os mesmos pontos de vista sob o rótulo de "análise isenta".
Há um fetiche pela análise vazia. Gasta-se horas discutindo a "liturgia do cargo" ou o "clima do mercado", mas explica-se muito pouco como aquela votação específica vai impactar o preço do feijão na mesa do brasileiro. Informação em excesso, sem didatismo e sem recorte de classe, não é esclarecimento — é ruído planejado.
7. Política Simples Não é Política Burra
Existe um medo entre os intelectuais de que simplificar o debate signifique empobrecê-lo. Aqui defendemos o contrário: a democratização do debate é o fortalecimento da democracia.
Explicar política de forma acessível não é tratar o público como incapaz; é respeitar o tempo e a realidade de quem trabalha 8 horas por dia (ou mais) e ainda precisa entender por que o transporte público subiu. Quem teme a simplicidade, no fundo, teme que o povo entenda o jogo. Porque, quando o povo entende, ele para de aplaudir e começa a cobrar.
8. O Medo da Politização Popular
Por que é tão perigoso que a política seja compreensível? Porque pessoas informadas questionam. Pessoas politizadas cobram promessas. Pessoas conscientes não aceitam discursos prontos de "austeridade" enquanto o lucro dos bancos bate recordes.
A frase "política é complexa demais" é, na verdade, uma confissão de medo. Medo da participação popular real. O poder prefere o espectadorismo — onde você vota a cada quatro anos e volta para casa achando que o resto é "coisa de quem entende" — à cidadania ativa.
9. Como Romper Essa Armadilha?
Romper a barreira da complexidade exige um esforço coletivo:
Linguagem Acessível: Exigir que governantes e comunicadores falem para todos, não apenas para seus pares.
Educação Política Contínua: Entender que política se faz no bairro, no sindicato, no coletivo e na internet.
Mídias Independentes: Apoiar veículos que não têm compromisso com o capital e que traduzem o poder sem filtros coloniais.
Escuta das Margens: Valorizar o conhecimento de quem vive os problemas, e não apenas de quem os estuda de longe.
A política é difícil, sim, mas não é inacessível. Difícil é o malabarismo que as elites fazem para manter as coisas como estão.
Conclusão
Política não é complexa demais. Complexa demais é a ginástica mental necessária para justificar por que tanta riqueza é produzida por tantos e acumulada por tão poucos. Complexa demais é a tentativa de manter o poder distante de quem ele mais afeta.
A democracia exige compreensão. E a compreensão exige uma vontade política de explicar, de incluir e de ouvir. Da próxima vez que alguém tentar te calar dizendo que "você não entende", lembre-se: se a política decide a sua vida, você é a maior autoridade no assunto.
Quando dizem que a política é complexa demais, desconfie. Geralmente, estão escondendo os seus interesses.
Informação acessível é um ato político. Siga a MM MONTEIROS e abra sua mente para uma nova forma de entender o poder.
MM MONTEIROS: Traduzindo o poder, empoderando você.

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