O Brasil e a Bomba Nuclear: Neutralidade Estratégica ou Vulnerabilidade no Novo Tabuleiro Global?
Em um mundo onde as potências voltam a normalizar a ameaça nuclear como ferramenta de barganha, o Brasil insiste no multilateralismo e na não proliferação. Seria esta uma estratégia diplomática responsável ou um risco geopolítico imensurável diante do colapso da ordem internacional?
1. O Mundo Voltou a Falar em Guerra Nuclear — e o Brasil Finge Não Ouvir
O relógio do juízo final não retrocede. Da escalada de tensões na Ucrânia ao xadrez de mísseis no Oriente Médio e na Ásia-Pacífico, a "paz nuclear" da Guerra Fria deu lugar a uma instabilidade imprevisível. O que antes era um tabu absoluto tornou-se retórica cotidiana de líderes mundiais.
Enquanto as grandes potências modernizam seus arsenais e rasgam tratados de controle, o Brasil parece observar o incêndio global da varanda, confiando que as chamas do Hemisfério Norte não cruzarão a linha do Equador. Mas, em uma nova ordem mundial onde a força bruta volta a ser o idioma oficial, o silêncio brasileiro pode ser lido como prudência ou como uma perigosa negação da realidade.
2. Por Que o Brasil Não Tem Armas Nucleares? Uma Escolha Política, Não Técnica
O Brasil é um dos raros casos de países que chegaram ao limiar da tecnologia nuclear e decidiram recuar. Não fomos impedidos por incapacidade; fomos freados por uma escolha soberana.
A Tradição Pacifista: O Itamaraty construiu uma identidade baseada no soft power e na mediação.
A Constituição de 1988: O Artigo 21, inciso XXIII, determina que "toda atividade nuclear em território nacional somente será admitida para fins pacíficos".
O Compromisso com o TNP: Ao aderir ao Tratado de Não Proliferação Nuclear nos anos 90, o Brasil aceitou as regras de um clube onde poucos mandam e muitos obedecem.
Essa postura moldou uma imagem de "país responsável", mas o multilateralismo que sustenta essa imagem está sob ataque. O Brasil optou por ser um gigante desarmado em um condomínio onde os vizinhos mais fortes estão reforçando as cercas elétricas.
3. Capacidade Existe? O Brasil Poderia Produzir uma Bomba Nuclear?
A resposta curta é: sim. O Brasil detém o que poucos países no mundo possuem — o domínio completo do ciclo do combustível nuclear.
Temos uma das maiores reservas de urânio do planeta e tecnologia de enriquecimento por ultracentrifugação desenvolvida pela Marinha, que é referência global. O projeto do Submarino Nuclear (PROSUB) é o maior símbolo dessa dualidade: uma tecnologia de ponta que nos coloca no topo da engenharia militar, mas ainda estritamente vinculada à defesa e propulsão, não ao ataque. O Brasil não tem a bomba porque não quer, mas a infraestrutura para tal está latente em nosso solo.
4. Multilateralismo em Crise: Regras Que Só Valem Para Alguns?
O TNP é, por definição, um tratado desigual. Ele cristaliza o poder nas mãos dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. Enquanto o Sul Global é pressionado à contenção e a inspeções rigorosas, as potências nucleares ignoram o desarmamento a que se comprometeram.
Quando a Rússia ameaça usar armas táticas e os EUA se retiram de tratados de céus abertos, o multilateralismo deixa de ser um escudo para se tornar uma algema para as potências médias. Até quando vale a pena jogar conforme regras que os próprios criadores já descartaram?
5. Os “Imperadores do Mundo” e o Retorno da Política da Força
EUA, Rússia e China não jogam o jogo da diplomacia por altruísmo; jogam pela dissuasão. A posse da arma nuclear garante que nenhum desses atores seja alvo de uma mudança de regime imposta externamente.
A normalização da guerra como instrumento político em 2026 mostra que, sem capacidade de dissuasão real, a soberania de um país é apenas um conceito teórico, sujeito à benevolência — ou aos interesses — de quem detém o poder de destruição em massa.
6. O Brasil Está Protegido ou Apenas Ignorado?
Muitos argumentam que o Brasil não tem inimigos. No entanto, a ausência de conflitos diretos não significa imunidade geopolítica. A Amazônia e nossas vastas reservas de recursos naturais são alvos constantes de "preocupações internacionais" que, em momentos de crise, podem facilmente se transformar em tentativas de tutela ou intervenção sob pretextos humanitários ou ambientais. Em um cenário de escassez global, a soberania nacional precisa de algo mais que uma nota de repúdio do Itamaraty.
7. Armar-se ou Não Armar-se: A Questão Não é a Bomba, é o Poder de Decisão
Não se trata de fazer apologia à militarização, mas de discutir autonomia estratégica.
O que ganhamos: Respeito diplomático e economia de recursos.
O que perdemos: Poder de veto nas grandes decisões mundiais e uma camada crítica de proteção territorial.
O debate nuclear no Brasil é tratado como tabu, mas discutir defesa nacional é um direito de qualquer nação que pretenda ser dona do próprio destino.
8. Mudança de Regras: O Que Pode Forçar o Brasil a Rever Sua Postura
Existem gatilhos que poderiam implodir a atual política brasileira:
O colapso total do TNP e uma corrida nuclear desenfreada em outros países do Sul Global.
A militarização ostensiva do Atlântico Sul por potências extrarregionais.
Pressões diretas que ameacem a integridade do território ou a exploração de nossos recursos.
Se o mundo mudar as regras do jogo e a força se tornar a única moeda de troca, o Brasil continuará jogando o "diplomaciabol" enquanto os outros jogam xadrez de guerra?
9. Conclusão: Neutralidade é Virtude — Até o Dia em Que Vira Vulnerabilidade
O Brasil precisa decidir se quer ser apenas um ator moral no palco global ou um ator estratégico. Defender a paz é uma virtude nobre, mas abdicar da defesa é um risco temerário. O futuro exige lucidez e o abandono da romantização das relações internacionais. Pensar a defesa nuclear não é desejar a guerra; é garantir que, caso o colapso chegue, não sejamos apenas espectadores passivos de nossa própria história.
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